Crítica: A verdadeira homofobia

Minha crítica de hoje vai para o seguinte artigo que li num site católico:

http://ocatequista.com.br/archives/12381

Primeiramente, quero chamar a atenção que esse post não se trata de um ataque a fé cristã, católica, muçulmana, islâmica, pagã, budista ou seja lá o que for. Também não tenho a ilusão que o conteúdo do texto cujo qual estou me referindo seja o reflexo da visão de todos os católicos, nem de todos os cristãos. Na verdade MESMO, vou tratar aqui que esse pensamento é exclusivo do AUTOR do texto, sempre lembrando, entretanto, que muitos pensam da mesma maneira (sejam esses “muitos” católicos ou não).

Gostaria de pedir, antes de ler a mim, quem leiam atentamente o texto ao qual me refiro. Porque caso contrário esse meu texto não fará sentido algum. Aí vai o link novamente (para não ter erro):

http://ocatequista.com.br/archives/12381

Interessante que, só pelo título, podemos caracterizar como será o teor de todo o discurso. “A verdadeira homofobia”, ou seja, um título mais extenso seria: “acusam os católicos de serem homofóbicos, mas homofóbico mesmo são as pessoas/povos que eu vou discorrer no texto” (estou generalizando “católicos” aqui, lembrem o que eu disse logo aqui acima, no começo do texto, beleza?). Então o comecinho trata do caso absurdo da nova lei sancionada pelo presidente de Ugando, que condena homossexuais a prisão perpétua, caso “pratiquem o homossexualismo”. Uma outra coisa me chama atenção nesse primeiro parágrafo: o fato de ter que existir um texto para alertar pessoas que a lei é “absurda e lamentável”.

Entretanto, a utilização dessa notícia advinda de Uganda não servirá para discutir o extremo preconceito que os homossexuais sofrem na sociedade, mas sim para “amenizar” o preconceito do autor a homossexuais e, outrossim, justificá-lo e descaracterizá-lo como preconceito. Ora, esta é uma falácia das antigas. Seria o mesmo que fazer um texto utilizando como exemplo o genocídio dos judeus por Hitler, classificando o ditador nazista como “o verdadeiro assassino”, para portanto desqualificar Pedro como assassino, porque ele apenas matou Maria por traição, um único crime e ainda “justificado”. Entendem?

O segundo parágrafo, para mim, é o mais grave:

É justo que uma sociedade que deseja preservar os valores da família formada por homem e mulher proíba a manifestação de atos homossexuais em público – nas ruas, nos estabelecimentos comerciais e na mídia –, bem como o casamento civil gay. Porém, as preferências sexuais de cada um, desde que não envolvam coerção ou abuso de crianças ou animais, não devem ser criminalizadas, ainda que sejam não sejam corretas.

Como assim É JUSTO que se proíba a dita “manifestação de atos homossexuais” e o casamento civil gay? Quem seria o autor, e em qual fonte se baseia para dizer que tais proibições seriam justas? O que se quer dizer com “os valores da família”? Por que será que um grupo de pessoas se julga possuidor de tal avanço ideológico-social a ponto de afirmar que seria melhor para toda a sociedade de um país que se proíba que certas pessoas de ser quem realmente são?

Gostaria de fazer um adendo para evitar comentários do tipo “mas um psicopata deve ser proibido de ser quem ele é para pessoas não morrerem” e coisas do gênero. Vale lembrar que o gay não faz mal a ninguém pelo simples fato de ser gay. A homossexualidade não é, de maneira alguma, mola propulsora de práticas criminosas, sejam elas quais forem. Quem discorda que me mostre o artigo científico.

Outra petulância do autor vem logo ao fim do mesmo parágrafo como “ainda que não sejam corretas”. E, sim, eu venho com a mesma sucessão de perguntas anterior: não são corretas por quê? E não vale citar a bíblia, lembrando que somos um país laico. Não importa no que a maioria acredita, a crença de um não pode sobrepujar a liberdade do outro. Imaginemos uma sociedade de testemunhas de Jeová, e então, obviamente, esse ato nefasto de se transfundir sangue seria proibido. E o discurso de um “moderado” testemunha seria o mesmíssimo do autor do texto.

Ainda referindo-me ao mesmo parágrafo: aceitar o homossexual e não aceitar que ele “pratique a homossexualidade” é o mesmo que não aceitar o homossexual. É a mesma coisa que aceitar que exista negro mas não aceitar que ele “pratique a negritude”. É a mesma coisa que aceitar o judeu, mas não aceitar as práticas judias (onde já se viu andar de chapéu e tranças?). Ou seja, quem diz o que o autor do texto diz, é, SIM, homofóbico. E não é o fato de existir alguém ainda mais homofóbico que ele que vai mudar o fato de que ele é HO-MO-FÓ-BI-CO.

No terceiro parágrafo o autor ainda cita traços da política de Uganda que considera positivo:

as igrejas protestantes ugandenses têm o mérito de dar amplo suporte à eficaz política de combate à AIDS do governo, focada na abstinência para os solteiros e na fidelidade conjugal

Eficaz política? Eficaz? Primeiramente, a obrigação da abstinência para solteiros está no mesmo nível da proibição de práticas homossexuais. Segundo, ela é impossível. Não se terá, NUNCA, uma sociedade em que isso aconteça. A não ser no mundo distópico de George Orwell, em seu 1984. É lógico que, ideologicamente, uma igreja possa incentivar a abstinência e a fidelidade, mas NUNCA se garantirá que isso NUNCA acontecerá.

Podemos comparar o índice de AIDS nos países aqui:

http://www.indexmundi.com/Map/?v=32&r=xx&l=pt

O autor também parece querer colocar uma sina de homofóbicos em regimes de esquerda. Não estou defendendo os comunistas, mas já que ele citou governos homofóbicos, ele se “esqueceu” da Alemanha nazista, de extrema direita, e do Japão na mesma época… Pois então…

E então, ataca os comunistas como o extremo oposto:

Nas últimas décadas, os socialistas reviram seus conceitos. Ao perceberem que poderiam instrumentalizar a homossexualidade para seus interesses de poder, passaram a promover os atos homossexuais na cultura e na educação escolar, divulgando também a ideologia de gênero. Os cristãos, unidos, devem lutar bravamente contra isso, mas sem jamais perder de vista o amor e o respeito por todos.

Lutar contra isso? Por que? Aqui vem o questionamento não relativamente a este parágrafo apenas, mas em relação a todo o texto: que direito uma pessoa tem sobre o corpo de outra? Quem dá o direito de poder a um grupo, que arbitrariamente se julga correto, de exigir que uma pessoa aja da maneira que esse grupo acha justa, mesmo que isso vá contra TUDO que essa pessoa sente, pensa e É? Por que o autor se julga tão evoluído a ponto de dizer que milhões de pessoas estão erradas?

“A-HÁ! Você é MEU, e obedecerá a MIM, e se privará de tudo que EU achar que deve se privar, e terá relações apenas com o gênero que EU achar correto, mesmo que seja um depravado e deseje coisas abomináveis e imundas, você será puro graças a MIM!”

Penso que as pessoas deveriam refletir quanto às suas posições. O que é diferente de você não é errado, você que o é por exigir que sejam. A repressão da “manifestação de atos homossexuais em público” é a repressão do homossexual. Não há diferenças entre o pensamento do presidente de Uganda e o do autor do texto: ambos querem os gays presos dentro de si próprios, pela vida inteira, sem a oportunidade de serem quem são, pois são abominações. O único detalhe é que a prisão idealizada pelo autor é domiciliar.

Livro – A Bússola de Ouro (Trilogia Fronteiras do Universo) – Phillip Pullman

Acho que muita gente já ouviu falar pelo menos do primeiro livro da série, A Bússola de Ouro, infelizmente por ter resultado num equivocado Lfilme (pelo que li de alguns críticos) estrelado por Nicole Kidman e Daniel Craig (o novo 007). O que vou falar aqui é exclusivamente sobre os livros.

A série, chamada “His Dark Materials” em inglês, conta com os livros: A Bússola de Ouro, A Faca Sutil e A Luneta Âmbar (Northern Lights, The Subtle Knife e The Amber Spyglass no original). O autor, o inglês Phillip Pullman, usou de uma fantástica imaginação e criou uma história complexa, rica em detalhes, com vários fragmentos que, não parece, mas são unidos e farão total sentido no final.

No primeiro livro, A Bússola de Ouro, conhecemos uma protagonista orfã de apenas 12 anos, Lyra, que é mestre em inventar histórias, no melhor estilo malandro que os brasileiros conhecem e, de repente, se vê no meio de uma complicada e misteriosa trama onde estão envolvidos os maiores poderes do mundo em que vive. A personagem é muito bem construída e complexa e conquista o leitor, através da leitura ela transpassa suas descobertas, medos, dúvidas, alegrias e tristezas.

Esse mundo que ela habita não é o que conhecemos, Pullman demonstra toda sua habilidade como narrador e cria um ambiente fantástico e ricamente detalhado sem ser redundante e excessivamente descritivo. É uma espécie de universo paralelo meio com clima vanguardista, muito parecido com o nosso, como se o planeta fosse o mesmo, até mesmo com alguns nomes de cidades iguais, como Oxford. A diferença reside principalmente nas questões tecnológicas e políticas: em vez de aviões e carros temos Zeppelins e carroças. Apesar desse aparente atraso tecnológico a trama revela o domínio da física quântica por alguns membros do chamado Magisterium e é aí que reside a polêmica desse primeiro livro que conquistou o Guardian Children’s Fiction Prize e o Carnegie Prize. Essa entidade é a igreja do mundo de Lyra e ela domina a política e é responsável pelas maiores atrocidades do livro: o rapto de crianças e a destruição de sua “alma” (que aparece no livro mais no sentido de consciência). Apesar desse ataque por parte de algumas religiões à história eu penso, realmente, que é uma bobagem. Fica claro que se trata de outra história e praticamente nada tem em comum com as religiões do mundo real.

Essa alma é outra palavra-chave em “A Bússola de Ouro”. Na história todas pessoas possuem a alma (chamada de daemon) exteriorizada ao corpo e materializada na forma de um animal que sempre a acompanha. Esse animal varia de um indivíduo para outro (podendo ser cachorro, gato, macaco etc.) de acordo com sua consciência e, assim sendo, é possível que se tenha uma ideia da personalidade da pessoa a partir do tipo de animal que é seu daemon. Essa invenção é outra excelente sacada do autor, que nos apresenta um Pantalaimon, o daemon de Lyra, tão formidável e carismático quanto ela. De resto eu nada vou revelar para não entregar a história (ainda mais).

No primeiro volume da série Pullman cria uma história fantástica, mas ainda é uma parte muito pequena dela, e a mais simples. Pode parecer meio boba e um pouco infantil no começo, mas recomendo a leitura e a persistência (não é NADA difícil persistir) para o seguimento dos outros dois livros, que são ainda melhores que esse. Eu vejo esta primeira parte mais como uma introdução da história e como uma ambientação ao universo magnífico criado. No decorrer da série o leitor se verá envolto num cenário ainda mais fantástico e imerso em um clima no qual não desejará parar de virar as páginas e acordar.

The Mentalist – 6ª Temporada (so far)

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ATENÇÃO. Esse post CONTÉM SPOILERS de “The Mentalist” até o início de novembro de 2013!

Pois então… depois de muito enrolar, e deixar Red John, o grande atrativo da série, à margem dos acontecimentos por praticamente quatro temporadas, lembrando dele apenas nos episódios iniciais e finais, os roteiristas resolveram acabar com a monotonia. Muito provavelmente devido à grande queda na audiência e à grande probabilidade de ser a última temporada da série.

As temporadas anteriores estavam repetitivas, sempre com um homicídio no começo e uma solução original de Jane que revelava quem era o assassino. Cada vez mais o personagem principal estava sendo menos genial e as coisas acabavam sem graça. Alguns episódios também estavam mal dirigidos. Comparo com “Smallville”, estenderam tanto a série que tiveram que ficar enrolando uma eternidade pra fazer o cara voar. Não há roteirista que consiga segurar por tanto tempo uma história que gira em torno de descobrir que é um único cara mantendo a alta qualidade.

Nesta sexta temporada, Patrick Jane está de volta com toda sua obsessão que lhe é característica. E, não sei se era esta a intenção, mas aos poucos ele foi perdendo a aura de gênio absoluto e sendo superado constantemente pela astúcia de Red John. Nada que “o mentalista” (fica muito estranho isso em português) faz parece ser suficiente para que se consiga qualquer pista do serial killer. Todavia, parece que neste início de temporada ele está conseguindo chegar mais perto.

O início desta nova temporada já começa em alta adrenalina e uma sucessão de acontecimentos marcantes fazem com que queiramos assistir o próximo episódio porque há conteúdo, e não porque apenas precisamos acompanhar para ver Jane capturando/matando o Red John no último episódio da última temporada

Acabo de assistir o sexto episódio da sexta temporada. A atmosfera de suspense cria uma sensação de apreensão até o final do episódio. Os roteiristas estão sendo muito hábeis pois todo mundo sabe que o Red John não será pego no sexto episódio da temporada. Nem que esta seja a última. Desta maneira fica realmente muito complicado surpreender o público sem dizer muito sobre ele e sem cair na fórmula que a própria série vinha caindo, de todo mundo morrer sem antes dar uma dica sequer do assassino. Mas mesmo assim eles vêm conseguindo deixar o espectador totalmente desorientado, e o ponto culminante (até agora) foi este sexto episódio.

Os coadjuvantes voltaram a ser meros coadjuvantes. Até mesmo Lisbon perdeu espaço. Tudo isso para focar no que realmente importa e no maior bem da série: Patrick Jane. Espero que a temporada continue conseguindo manter essa qualidade sem deixar a peteca cair. Sem enrolação. O provável final próximo dá a possibilidade aos roteiristas de explorarem o psicológico de Jane, sua obsessão. Os acontecimentos estão mostrando que ele está realmente disposto a tudo, até mesmo cego a ponto de passar por cima das pessoas que confia e ser totalmente negligente com sua segurança. É o retorno do antigo Patrick, meticuloso, manipulador, inconsequente e genial.

Espero que o episódio final faça jus ao grande personagem e que toda a história se feche, sem pontas soltas. Diferente do que vem acontecendo com os episódios finais de muitas séries famosas ultimamente.

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Série – The Walking Dead – 4ª temporada (so far)

tWD

Esse texto contém spoilers dos capítulos lançados até outubro 2013!

Penso que os primeiros três episódios da 4ª temporada de The Walking Dead sejam suficientes para fazer alguma análise.

A terceira temporada foi marcada por momentos muito impactantes e excelentes, como a perda da perna do velho, o nascimento do bebê juntamente com a morte da mulher (note que eu sou péssimo para nomes, mas quem assistiu acho que entende!), o aprisionamento de alguns integrantes do grupo de Rick pelo Governador, as atitudes de Michone, morte de personagens fortes etc. Entretanto ela terminou, ao meu ver, MUITO a desejar. Afinal, por que diabos a “turma” do governador, com canhões, um arsenal pesadíssimo, e quantidade de gente MUITO superior à quantidade do pessoal da prisão, teria medo de meia dúzia de fogos de artifício? E não só medo, não só recuaram, fugiram totalmente!

Se houve motivos, eles não foram suficientemente explícitos. Sei que havia alguns, mas vamos lá, para tamanha retirada, os motivos, na minha opinião, necessitariam ser mais fortes. Sei também dos problemas no que diz respeito a roteiristas, alguns saíram, outros entraram…. enfim, deu nesse catzo.

Tudo isso serve como introdução para a provável dificuldade que foi colocar tudo em ordem e fazer o espectador sentir vontade de assistir uma nova temporada. Roteiristas recontratados e um primeiro episódio de temporada um pouco monótono. Ao meu ver poderiam ter dado uma acelerada nas coisas. Isso porque a tentativa de criar uma empatia com certos personagens não foi muito bem sucedida, e os que morrem não fizeram lá muita diferença. Não deu tempo de comprá-los, de criar simpatia para com eles. Entretanto, este capítulo conseguiu construir uma boa base para o desenrolar dos acontecimentos nos capítulos subsequentes.

Apesar da ligeira apatia do primeiro episódio, ele possibilitou uma série de acontecimentos impactantes. A nova doença mostra a fragilidade e a incapacidade de recorrer a medicamentos em farmácias. Ao mesmo tempo, a nova temporada vem mostrando a independência (forçada obviamente) dos humanos em relação aos mercados e comidas estocadas, e a necessidade (e dependência) de se cultivar o próprio alimento. Li críticas à serie, dizendo que não é mais sobre zumbis, que eles são apenas coadjuvantes. Eu discordo. Eles são o cerne, eles foram o apocalipse e ainda o são. O apocalipse que veio para uma imensa maioria e continua batendo na porta dos que ainda não sucumbiram. Eles continuam sendo o perigo e é por causa deles que tudo é difícil. É um perigo muito menos óbvio do que “toneladas” de mortos-vivos atacando a esmo tudo, e com muito mais qualidade. Como uma série iria sobreviver de milhares de momentos do naipe Resident Evil? A série está indo muito bem nesse caminho, na minha opinião. E é isso que nos faz querer assisti-la. Que continue subindo em qualidade, e que não estrague tudo no final novamente.

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Livro – Uncommon Sense – The Heretical Nature of Science – Alan Cromer

O pensamento tradicional diz que a ciência é uma evolução inexorável do desenvolvimento humano, uma consequência de nossa natureza. Alan Cromer, em seu livro, discorda dessa visão e argumenta que a ciência foi uma conquista da humanidade que só pode ocorrer devido a fatores muito especiais e que, provavelmente, ela jamais teria surgido se diversos fatores específicos não estivessem presentes.

Seu primeiro capítulo é destinado a explicar os aspectos da ciência. O principal ponto é que o conhecimento científico é cumulativo e pleno. Novas descobertas não invalidam o conhecimento anterior, mas sim o complementa. É utilizada como exemplo a relatividade, que não invalida a física clássica newtoniana, mas sim explica como a física funciona em diferentes escalas. Apesar de o avanço aumentar nossa capacidade de realizar proezas, a compreensão de determinados assuntos limitam o possível, ou seja, nos faz perceber o quão longe poderemos chegar e de onde não poderemos passar. O autor ressalta que os três aspectos da ciência por ele listado (o fato de ser recente, a integridade de alguns de seus conhecimentos fundamentais e sua harmonia intrínseca) nos permitiu “pela primeira vez ter o conhecimento verdadeiro da natureza da existência e nosso lugar nela”.

Segundo Cromer, a ciência é a crença herética de que a verdade sobre a real natureza das coisas é para ser encontrada pelo estudo delas mesmas. Também é proposta a restrição do termo ciência a ciência moderna, pois ela é um sistema de pensamento muito diferente dos anteriores, como a astrologia e a necromancia. A ciência é a rejeição do pensamento intuitivo e a adoção da ideia que o conhecimento só pode ser adquirido através da investigação objetiva.

 Aristóteles

O autor utiliza o trabalho de Jean Piaget para basear sua ideia de que o desenvolvimento de capacidades racionais exige uma reunião cumulativa de fatores. Portanto, as capacidades racionais e críticas devem ser cultivadas e fomentadas. Eles necessitam de um ambiente específico que, segundo ele, apenas os gregos foram capazes de desenvolver. O resultado é que as outras sociedades, mesmo que tenham produzido determinados avanços tecnológicos além dos gregos, não poderiam romper o egocentrismo tradicional na objetividade científica.

O egocentrismo, segundo Piaget, é o principal obstáculo do crescimento mental e, para Cromer, este foi o principal obstáculo para o desenvolvimento da ciência. O egocentrismo dá origem ao animismo e, até que o ser humano não conseguisse eliminar ambos, o desenvolvimento do pensamento objetivo não seria possível. A ciência deve ser livre do sobrenatural.

Peanuts: Exemplo do egocentrismo de Piaget

O autor destina um capítulo do livro explicando a evolução humana, distinguindo-nos dos animais e para dizer que nossa habilidade de construir ferramentas é inata, mas não a capacidade de pensar objetivamente. Outras civilizações conseguiram avanço tecnológico, mas nenhuma delas constituiu uma abordagem holística e racional-científica comparável a formas modernas de pensamento científico. Diz também que há limites culturais que impediram o surgimento da ciência. A religião sempre teve muita influência na cultura. A Bíblia, argumenta, é o exemplo de representação de uma cultura de pensamento egocêntrico, já a Ilíada e a Odisseia são exemplos de uma cultura de pensamento racional. Para o autor, os seguintes fatores culturais permitiram o pensamento científico na Grécia antiga:

1-      Assembleia

2-      A economia marítima

3-      Um mundo de língua grega

4-      Uma classe mercante independente

5-      A Ilíada e a Odisseia

6-      Uma literatura religiosa não dominada por sacerdotes

7-      Persistência desses fatores por mais de mil anos.

Ele argumenta que, apesar dessas características, o surgimento do racionalismo e da ciência não é inevitável, pois depende também de condições materiais e predileções culturais criadas pelo pensamento e ação humanas. Tudo isso, então, levaria ao desenvolvimento da investigação científica. Apesar de haver argumentos concretos e históricos que sustente, por exemplo, o papel da economia marítima e de um mundo de língua grega nesse desenvolvimento cultural, a explicação parece um pouco superficial. Não há explicações maiores sobre o porquê de a literatura religiosa não ser dominada pelos sacerdotes, por exemplo. Falta também uma explicação mais aprofundada sobre a assembleia, não seria ela consequência de uma característica cultural da civilização grega e, assim, não ser a assembleia em si uma das causas do pensamento objetivo e sim um resultado de uma característica intrínseca do povo heleno?

Com a invenção independente da imprensa por Guttenberg, na idade média, e a consequente diminuição do preço e aumento da facilidade de acesso aos livros, as ideias gregas foram redescobertas na Europa. Para o autor, as razões da revolução científica residem no fato da continuação da ciência grega, na existência de um governo descentralizado e cidades autônomas, no capitalismo com o surgimento das universidades e da imprensa. Dessa maneira, através de Copérnico, Galileu e Newton, a humanidade pode se desprender do egocentrismo e do animismo e tirar a Terra do centro do universo, derrubando o mundo aristotélico que perdurava havia dois mil anos.

O Universo de Ptolomeu: Terra ligeiramente deslocada do centro e demonstrando os epiciclos que explicariam o movimento retrógrado dos Planetas.
 

Cromer afirma repetidamente, durante todo seu diálogo, que o pensamento objetivo só poderia ter surgido na Grécia e em nenhum outro lugar, e que a ciência atual é uma extensão da retórica grega. Entretanto não há provas cabais que determinem definitivamente que essa asserção seja válida. Aliás, seria impossível provar que o pensamento objetivo não surgiria em outra civilização posterior à grega porque ele já existia quando essas civilizações surgiram.

Heliocentrismo: O movimento da Terra explica o aparente movimento retrógrado dos outros planetas.

São citadas a parapsicologia e a fusão a frio para alertar os perigos de escorregar-se da ciência para a pseudociência. O autor critica a visão romântica da ciência, uma história até alquímica, como a ideia de um pesquisador sozinho fazer uma grande descoberta que mudará os rumos da humanidade. Com esses exemplos ele demonstra a importância do registro para confirmação de um experimento, da possibilidade de reprodução de um trabalho e das referências bem selecionadas para a submissão de um trabalho. Há também relato de um caso onde experientes pesquisadores do CERN erraram ao selecionar dados para a confirmação de uma hipótese, tornando a amostra viciada. A ciência é feita por pessoas que sempre estão sujeitas a erros, porém é papel da ciência que todos os trabalhos sejam revistos e reproduzidos para confirma-los. O cientista não pode ter a mente aberta a ponto…

O final do livro faz fortes críticas ao projeto SETI (Search for Extra-Terrestrial Intelligence), visando até mesmo colocar em xeque a natureza científica do empreendimento. O cerne da crítica é que essa busca não respeita o princípio da falseabilidade, visto que, utilizando a metodologia científica, não é possível provar que algo não exista. Cromer ainda argumenta que o projeto é inútil e muito dispendioso, inclusive afirmando que o ser humano nunca conseguirá manter contato com uma civilização extraterrestre. Talvez o projeto seja mesmo um desperdício de recursos que poderiam ser aplicados de maneira mais eficiente para desenvolvimento de retorno imediato e concreto, e talvez esta seja mesmo uma busca abnóxia. Entretanto avanços tecnológicos podem surgir graças a grandes empreitadas. Segundo o autor, o ser humano está para sempre preso no planeta Terra, e jamais conseguirá explorar outro lugar habitável, argumentando que a velocidade limite do universo é a velocidade da luz. Atualmente há teorias que desafiam a máxima de Einstein, como o astrônomo português João Magueijo, que sugere que a velocidade da luz possa ser diferente em diferentes lugares do espaço. Há também especulações baseadas em novas descobertas da física que buscam por atalhos no espaço para fazer uma viagem espacial. Apesar de tudo ainda parecer bastante com ficção científica, essa imaginação fértil pode resultar em descobertas importantes e, apesar do cientista não poder ter a mente aberta a ponto de o cérebro desprender-se de sua cabeça, ele não pode a ter tão fechada a ponto de afirmar, como Lorde Kelvin, que a física já está praticamente fechada e só restam alguns detalhes a esclarecer. Cromer passa perto desta assertiva.

Radiotelescópios do projeto SETI (Search for Extra-Terrestrial Intelligence)

Finalizando, há uma proposta ao ensino de ciências, na qual o autor prega a instrução de professores por profissionais da ciência para aumentar-lhes o conhecimento fundamental da ciência para que possam ensiná-la de maneira mais efetiva. O autor também propõe a eliminação dos dois últimos anos do ensino médio, aumentando a carga de estudos nos outros anos, argumentando que os alunos assim se formariam com quinze anos na escola e com vinte na faculdade. Esta é uma visão totalmente política e capitalista, que tem como objetivo apenas o fornecimento de massa humana ao trabalho. Se um estudante de dezessete anos muitas vezes não tem maturidade para escolher uma profissão, é realmente difícil acreditar que um aluno de quinze irá ter. Outro problema é que esse devaneio não contempla também o aluno como ser humano, transformando-o numa máquina de estudar em meio a todos os percalços da puberdade. A fantasia planeja até eliminar as artes e os esportes da escola, ignorando completamente os estudantes que escolheriam esses caminhos como carreira para vida inteira. Essa atitude também despreza a importância cultural e econômica dessas atividades, além do efeito benéfico que podem trazer ao indivíduo emocionalmente ao dedicar-se a elas.

Concluindo, o livro mostra-se coeso em seus argumentos, sendo a visão de um cientista à ciência, e não um filósofo. O livro apresenta uma bela descrição histórica relacionada a ciência. Entretanto, há superficialidade nas análises e sua afirmação principal, apesar de não ser irrefutável, é capaz de nos fazer refletir sobre o nascimento da ciência.

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Livro – Ascensão e Queda do Terceiro Reich

Escrito por William Lawrence Shirer, um jornalista estadunidense caolho que foi testemunha ocular (pense o quão irônico é este fato), o livro trata da ascensão de Hitler ao poder até o começo da II Guerra, em 1940.

Divido em dois volumes – “Triunfo e Consolidação” e “O Começo do Fim” – o livro é publicado pela editora Agir aqui no Brasil, e foi bem difícil de achar na época em que eu comprei. O primeiro trata de toda a vida de Hitler, da situação econômica, política e social da Alemanha pós primeira guerra, dos motivos do surgimento do nazismo, bem como sua filosofia, e, principalmente, da chegada de Hitler ao poder e termina com o início da II Guerra, em 1939. O segundo trata de todo período de guerra. Achei as edições caras (R$93,00 cada), apesar de o material ser de boa qualidade e do bom e durável acabamento, além da capa dura. A tradução é bem feita, mas há alguns momentos, principalmente em algumas citações, que uma sentença fica totalmente ininteligível, mas não sei se isso se deve à tradução ou se é uma falha original. Há também alguns pequenos erros de digitação espalhados pelo livro, mas nada que comprometa.

III Reich 1

Como o autor vivia na Alemanha durante todos os anos que se passa o primeiro volume, essa parte se encontra recheada de detalhes, incluindo algumas descrições presenciadas pessoalmente e suas impressões das reações do povo e de pessoas importantes envolvidas, inclusive de Hitler. Para se ter uma ideia, Shirer conversou pessoalmente com o meio-irmão do ditador nazista, assistiu a diversos discursos do Führer, escutou as emissões via rádio originais das proclamações feitas em rede nacional, inclusive da declaração de guerra. Essa primeira parte faz um relato minucioso de tudo que se passou.

Já o segundo volume trata as coisas de uma maneira mais distante, muito provavelmente devido à mudança do autor para os Estados Unidos. Apesar de possuir uma quantidade impressionante de dados, o autor já não tem tantas informações para dar como tinha nos anos em que residiu na Alemanha . Achei também que a guerra foi tratada muito como plano de fundo, e não como personagem principal. O principal mesmo aqui é a política do Terceiro Reich e o modo como se conduziu a guerra. As batalhas são relatadas superficialmente. O famoso dia D é apenas citado e o desembarque na Normandia tem míseras linhas, sem destaque. Talvez essa tenha sido a intenção original do autor, que, entretanto, relatou minuciosamente todos engenhosos planos arquitetados pelos próprios nazistas para matar Hitler. É também dedicado todo um capítulo para descrição de algumas das barbáries praticadas pelas “SS”, relatando os horrores da chamada “Nova Ordem”. A leitura termina com a queda do Terceiro Reich, com um pequeno epílogo que trata do destino dos principais nazistas que permaneceram vivos até a capitulação.

III Reich 2
Essa admirável obra é espetacular principalmente devido ao acesso que Shirer teve aos infindáveis documentos nazistas que foram capturados, principalmente para o famoso julgamento de Nuremberg. O autor parece ter estudado pacientemente grande parte deles e procura sempre descrever tudo de maneira clara e sucinta. Há uma enorme quantidade de transliterações de diversos debates, discussões, discursos, documentos secretos etc. Há também uma extensa bibliografia. Tudo isso leva a crer na autenticidade e veracidade dos fatos expostos, além de enriquecer enormemente seu relato.

Shirer também imprime suas emoções em todas descrições das pessoas importantes que cita. Algumas vezes essas descrições são carregadas de alguns preconceitos pessoais, ligados, ao meu ver, à sua religião, sua nacionalidade e também à cultura da época, visto que o livro foi escrito entre 1955 e 1959, sendo publicado em 1960. Mas nada que macule uma obra tão extensa e tão intensamente trabalhada. Apesar de não haver uma reflexão mais profunda sobre o suceder dos fatos, “Ascensão e Queda do Terceiro Reich” se mostra um livro indispensável para todos aqueles que procuram entender e vivenciar a origem e as consequências da II Guerra Mundial.

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Filme – Gravidade

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Você é um astronauta de primeira viagem e está consertando o telescópio Hubble quando pedaços de um satélite russo destruído por um míssel gera uma catastrófica cascata de eventos, jogando milhares de fragmentos de diversos satélites em sua direção. Em poucos minutos você está errante, sozinho, no espaço. Essa é a premissa básica do filme de Alfonso Cuarón.

O roteiro pouco importa, pois o diretor foi hábil utilizar todos sensacionais esfeitos especiais e giros de câmera 360° em três dimensões para transportar o espectador para o espaço. Ele faz que você se sinta no espaço, no lugar de Sandra Bullock. Você inclusive é capaz de sentir a vertigem que é estar vagando no espaço, à deriva, girando, girando…

Não há outra ameaça a não ser o nada, a não ser a falta. Falta ar, falta gravidade, falta pressão atmosférica, falta luz. É o espaço em toda a sua imensidão hostil. É um filme subjetivo, sobre a fragilidade humana ante a natureza implacável. E também sua força. O filme também aborda o autoconhecimento adquirido ao passarmos por situações extremas. É um retorno às origens, como iníviduo e como espécie.

Ouvi críticos falando que a sequência inicial é preciosismo, soberba, presunção. Dizendo que as tomadas nada ortodoxas (lê-se geniais) eram desnecessárias. Balela. Inveja. E soberba e presunção dos críticos, não do diretor. É um filme redondo, uma preciosidade. Nada lá parece exagerado, toda tecnologia foi usada em função da história, em função de criar o clima necessário para o filme funcionar. E, convenhamos, fazer um filme com praticamente uma pessoa só, funcionar tão bem, sem ficar enfadonho, é muita habilidade do diretor.

Para mim, o único defeito é a história da personagem principal. Não dá pra comprar, e a ausência dela não faria muita diferença no filme. Muito falaram também sobre a Sandra Bullock, inclusive que deve ser indicada ao Oscar. Muito provável que seja, mas é uma atuação apenas eficiente, longe do brilhantismo. Não compromete o resultado final.

Cuarón sem dúvida será o indicado a melhor diretor. Não sei o que vem por aí até o Oscar, mas caso ele não vença será uma injustiça tremenda. Mas nunca se sabe, a academia tem tido premiações desastrosas nos últimos anos. Veremos.

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